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O mais importante festival de rock do qual você nunca ouviu falar

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O mais importante festival de rock do qual você nunca ouviu falar

Sucesso absoluto desde sua primeira edição, em 1985, o Rock in Rio deste ano vai chegando ao fim, entrando em seus últimos dias. Considerado um dos maiores festivais de rock do mundo, principalmente do gênero rock, o evento já está em sua sétima edição no Rio, onde nasceu.

Nascido nos anos 80, o festival acontecia uma vez a cada década. Até que, em 2010, Roberto Medina, criador do evento, anunciou um novo formato, com edições a cada dois anos.

Hoje, o espetáculo conta com dezenas de super-bandas e uma estrutura similar à de grandes eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas, o que atrai cerca de 100 mil pessoas por dia. E, similar ao Rock in Rio, existem diversos outros eventos do tipo no calendário dos amantes da música: Lollapalooza, Coachella, Glastobury, Pitchfork…

As opções, cada uma com uma identidade própria, são quase infinitas. Mas nem sempre foi assim; se jazz, pop e folk tinham todos eventos próprios, a ideia de um festival voltado para a música e cultura rock era apenas isso: uma ideia.


Até que, em 1967, a estação de rádio californiana KFRC resolveu criar um evento do tipo: o Fantasy Fair and Magic Mountain Music Festival, considerado o primeiro festival de rock da história. O evento, que tinha como objetivo trazer de volta o rótulo de “cool” à rádio, durou dois dias (10 e 11 de junho) e atraiu mais de 36 mil pessoas. Quem ouve o impacto que o evento, ocorrido em São Francisco, teve na comunidade musical, no entanto, pouco consegue imaginar a simplicidade (e até ingenuidade) da organização:

ESTRUTURA

Queimas de fogos dignas de reveillon, palcos surreais e shows de luzes não passavam de um sonho para a época. Apesar disso, a produção do festival, que acontecia no topo de uma montanha, via a importância de uma boa produção visual e confeccionou um balão gigante de Buda, para receber quem ia chegando para o festival. O tema do palco principal, astrologia, se fazia presente nos painéis de 4 metros de altura, cada um com imagens ilustrativas de um signo do horóscopo, que ficavam atrás das bandas. A cerca de cem metros dali, bandas locais performavam em um palco menor.

O local não possuia iluminação, o que o forçava a começar às 8 da manhã e terminar por volta das 18h. Isso acabou facilitando o agendamento das bandas, já que a maioria das casas de show locais só recebiam eventos à noite.

Para subir ao topo do Monte Tamalpais, onde o evento acontecia, era necessário pegar um dos ônibus fretados. Para os mais aventureiros, no entanto, uma gangue de motoqueiros local oferecia caronas.

Para mitigar os efeitos causados pelas drogas, consumidas em grande quantidade no evento, foi criada até uma “tenda anti-bad trip”, na qual uma equipe de médicos injetava Thorazine em todos aqueles que estavam passando por experiências ruins após o uso de LSD.

MOVIMENTO CULTURAL

Podemos dizer que o objetivo do evento, além de elevar o status da KFRC, era fomentar a (contra-)cultura local. Era, em sua essência, um festival para incentivar que as pessoas da comunidade local pudessem expressar seus talentos das mais diversas formas.

Quase toda a renda obtida com os ingressos – adquiridos a incríveis 2 dólares (hoje equivalente a cerca de 15 dólares) – foram, inclusive, convertidos em ajuda para centros de caridade locais.

LAZER

Paralelamente aos shows, os festivais de hoje em dia oferecem centenas de opções de diversão, muitas vezes patrocinadas por companhias gigantes: montanha-russa, tirolesa, karaokê, degustação de cerveja. A lista é extensa. No entanto, podemos dizer que essas atrações são uma ideia emprestada do Fantasy Fair, que oferecia balanços em pneus e escorregas, além uma série de instalações artísticas que visavam apoiar a cena artística local.

LINE-UP

Enquanto a KFRC tocava um mix de artistas em sua programação, com grupos mais underground entre bandas mais populares e mainstreams, a linha do festival foi além, literalmente misturando bandas diferentes em cima do palco. Muitas dessas bandas, inclusive, nem eram conhecidas pelo grande público até o festival. John York, por exemplo, membro do The Byrds, tocou com a galera dos Sparrows, que meses depois mudariam o nome para Steppenwolf e lançariam o hit Born to Be Wild. O The Doors era considerado apenas uma imitação barata dos Rolling Stones, na época.

Muitas das bandas, inclusive, tocaram de graça. Elas viam um excelente oportunidade de promoção (a KRFC era a rádio número 1 de São Francisco). Além disso, os grupos acreditavam nos valores sobre os quais o festival girava em torno.

Entre os números mais conhecidos a marcar presença, estão: Dionne Warwick, The Doors, Jefferson Airplane, The Byrds e Steve MIller Blues Band.

BACKSTAGE

Fazendo uma rápida pesquisa na internet, conseguimos encontrar facilmente a lista de exigência de cada banda para o Rock in Rio: centenas de toalhas brancas, garrafas de champagne, comidas orgânicas. As extensas listas de pedidos em nada lembram o Fantasy Fair; para falar a verdade, os artistas sequer tinham camarins! É isso mesmo: os artistas ficavam apenas do lado do palco esperando sua hora de entrar e, quando acabavam, se misturavam ao público, tornando-se espectadores. Há relatos, inclusive, de que os Byrds chegaram para se apresentar sem baterista, sendo salvos por um voluntário da platéia, que usou pés de uma mesinha como baqueta improvisada.

Não existia nenhuma área VIP ou algo próximo ao que consideramos um backstage e não existia virtualmente nenhuma separação entre os fãs e seus músicos preferidos.

Os integrantes do The Doors, por exemplo, saíram de seus shows e literalmente deitaram no gramado com o público para assistir à atração seguinte.

MODA E ESTILO

Garotas com cabelo até a cintura e flores no cabelo. Roupas com referências aos nativos americanos como cocares e colares. Calças com pinturas psicodélicas feitas a mão; Muitas das pessoas que frequentaram o festival tiveram seu primeiro contato com a cultura e experiência hippie pela primeira vez ali. E essa mesma estética ainda é facilmente encontrada em muitos festivais atuais como o Coachella.

TRIBOS

O movimento de lifestyle hippie ainda estava a alguns anos de estourar de fato e se tornar um movimento de massa, então o Fantasy Fair era uma grande mistura dos mais diferentes grupos, indo desde as já mencionadas garotas com flores nos cabelos até jovens musculosos com camisetas de fraternidades de universidades da California, passando por hippies radicais.

MERCHANDISING

Se hoje vemos marcas pagando milhões para terem seus nomes estampando o evento e stands gigantescos com produtos de todos os tipos (quem lembra da lama do Rock in Rio?), os eventos pouco eram voltados para o lado comercial. Mesmo as opções de produtos a serem comprados, tinham um cunho cultural: pequenas cabines vendiam produtos como cachimbos, bongs e bottons com mensagens anti-Nixon, então presidente dos EUA.

Além disso, muitos funcionários dessas barraquinhas, tomados pela atmosfera do evento ao chegar lá, chegavam a abandonar completamente suas funções para se juntar aos shows.

MEMÓRIA

Se os festivais atuais possuem transmissão ao vivo em quatro canais diferentes, com equipes de reportagens exclusivas e imagens de ângulos cinematográficos, o mesmo não pode ser dito do Fantasy Fair. Nenhuma equipe especializada foi sequer contratada para filmagens e para montar um filme, o que acarretou em praticamente todas as imagens do Magic Mountain Festival, feitas por amadores, se perdendo. Hoje, não há virtualmente nenhum registro de áudio existente dos concertos.

No entanto, o legado do evento é imensurável: foi o primeiro de uma série de eventos culturais na área de Sao Franciso que, juntos, ficaram conhecidos com o Summer of Love. Esses eventos possuíam uma inclinação política e social, sempre tocando em assuntos como a rejeição aos valores consumistas e a oposição à Guerra do Vietnã.

O mais famoso desses eventos foi Woodstock, que veio a ser organizado, inclusive, por alguns dos mesmos organizadores do Fantasy Fair and Magic Mountain Festival.

Fotos: Radley Hirsch / Helie Robinson / Jamie Beck / Brian Costales