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Streaming e vinil: dá pra comparar?

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Streaming e vinil: dá pra comparar?

Nos últimos anos, temos visto a ascenção de duas formas diametralmente opostas de se ouvir música: de um lado, o nostálgico vinil. Do outro, o moderno e conveniente streaming. Os advogados do vinil propõem que essa mídia é superior a qualquer outra. Do que o streaming, então… não há discussão. Mas será que é isso mesmo? É sobre o que vou falar hoje.

Antes de tudo, vamos explicar resumidamente o que é cada um: o streaming nada mais é do que o download temporário de um arquivo. Algum software, como o Spotify ou o Apple Music, baixa um arquivo de música em seu aparelho celular ou notebook, e toca esse arquivo. Após o final da música, ele é deletado. Consequentemente, essa mídia nada mais é do que um arquivo digital, como um mp3, e por isso é refém das qualidades e defeitos desse método de reprodução. O vinil, em contrapartida, é uma mídia bastante tradicional que, ao contrário de praticamente qualquer outra amplamente utilizada atualmente, é analógica.

Consequentemente, o embate aqui é, em última instância, digital versus analógico. Vamos entender o que significa cada coisa.

COMO FUNCIONA O VINIL E O ÁUDIO ANALÓGICO?

Tenha em mente que ondas sonoras nada mais são do que variações contínuas na pressão do ar.  Um microfone, que é um transdutor – ou seja, um aparelho que transforma um tipo de energia em outra – detecta essas variações e as transforma num sinal elétrico analógico cuja tensão ou corrente é proporcional à pressão do ar. Esse sinal é então convertido em variações físicas numa mídia – por exemplo, no vinil, existem sulcos por onde a agulha do toca-discos percorre, e dentro desses sulcos está um “caminho” com altos e baixos que representam a variação de tensão ou corrente do sinal elétrico, que, por sua vez, corresponde à variação de pressão sonora do evento musical original. Durante a reprodução, o movimento da agulha também representa as ondas sonoras e é transformado novamente num sinal analógico que é amplificado pelo resto do sistema e, por fim “imitado” pelos alto-falantes, reproduzindo o som.

Resumindo, isso significa que, na gravação e na reprodução do áudio analógico existem variações físicas análogas (daí o nome) às variações de pressão do ar do acontecimento musical que foi gravado.

E O DIGITAL?

Já no áudio digital, até a transformação das variações de pressão do ar pelo microfone num sinal elétrico, a história é a mesma. A diferença é que esse sinal elétrico é então transformado em uma série de números que o representam através de um processo chamado de amostragem. Esse processo mede, milhares de vezes por segundo, a amplitude do sinal analógico e cria pontos de dados. Esses pontos de dados são registrados num arquivo (que pode ser o mp3, sobre o qual falamos ali em cima) que é lido pelo aparelho encarregado da sua reprodução – como seu smartphone ou notebook. Esse aparelho, então, converte esse arquivo novamente para analógico (por meio de um DAC, Digital to Analog Converter, ou conversor digital-analógico), porque alto-falantes de caixas de som ou fones de ouvido só conseguem trabalhar com este tipo de informação.

Por isso, pode-se dizer que a principal diferença entre um arquivo digital e uma mídia analógica é que enquanto esta carrega variações físicas análogas a um sinal elétrico que representa a música, aquele sintetiza este sinal elétrico em informações digitais que são, durante a reprodução, transformados novamente em um sinal elétrico.

TÁ, ENTENDI. MAS O QUE É MELHOR?

Ambas as formas de reprodução possuem limitações e vantagens, mas é comum no mercado a opinião de que o vinil é inerentemente melhor. Mas isso, em grande parte, não é verdade – inclusive, o vinil sofre de limitações muito mais severas do que o áudio digital.

Essa crença nasce de uma má interpretação do que representa o processo de amostragem. É comum vermos na internet um gráfico que compara o áudio digital com o analógico, e nesses gráficos, o digital é representado como uma escada apenas com linhas horizontais e verticais, e o analógico como uma linha curva. Isso dá a entender que o digital é muito mais bruto e imperfeito, mas na prática não é isso que acontece. Como podemos ver neste artigo do cientista da computação Chris Montgomery, a “escada” do digital representa apenas uma série de pontos, que será convertida para uma curva pelo DAC, o conversor digital-analógico que está em smartphone ou notebook. E você não precisa se preocupar com o quão bem esse DAC vai fazer a conversão: de acordo com o Teorema de Nyquist-Shannon, a reconstrução deste sinal será perfeita. A única solução matemática para aquela série de pontos do arquivo digital, dentro de todo o espectro de frequências audível por um ser humano, é exatamente o sinal analógico original – o mesmo de antes da conversão para digital.

Basicamente, a única coisa com a qual você deve se preocupar no áudio digital é a taxa de compressão. Explico: o arquivo digital “cru” de um CD, por exemplo, está no formato WAVE. Só que esses arquivos são imensos (50Mb para uma música de 5 minutos), e por isso métodos de compressão, que facilitam a transmissão desses arquivos pela internet e armazenamento, foram concebidos. O mp3 é um formato de arquivo comprimido. Resumidamente, a compressão é feita cortando extremos da música – partes muito graves e partes muito agudas.

O que define a taxa de compressão é a taxa de bits, ou bit-rate. Quanto mais agressiva for a compressão, menor é o bit-rate. E, apesar de bit-rates menores serem audivelmente piores do que um arquivo sem compressão – por exemplo, um mp3 a 128kbps ou o Spotify configurado na “Qualidade Normal” nas configurações (que traz arquivos Ogg-Vorbis a 96kbps) –, uma compressão mais branda, como um mp3 a 320kbps ou o que o Spotify chama de “Qualidade Extrema” (Ogg-Vorbis a 320kbps) serão praticamente indistinguíveis do arquivo digital master que saiu do estúdio depois que o artista gravou. Por isso, como dissemos em nosso artigo “Como conseguir uma boa qualidade de som”, é muito importante que você selecione a maior qualidade possível nas configurações do seu serviço de streaming se quiser áudio de qualidade.

Já no vinil, as preocupações são muito maiores porque, como dito anteriormente, há limitações muito mais significativas inerentes ao formato – limitações estas que não existem no áudio digital em proporções remotamente similares. Resposta de frequência mais curta, faixa dinâmica mais estreita, degradação (os nostálgicos “cliques” e “pops”, que com o tempo ficam mais altos e mais frequentes), contaminação de vibrações provenientes do ambiente e o piso de ruído imposto pela fricção da agulha no disco são exemplos. E não somos apenas nós que estamos dizendo: renomadíssimos e premiados engenheiros de som, como Bob Ludwig e Bob Clearmountain apontam neste ótimo artigo do LA Weekly. Por isso, pode-se dizer que o áudio digital é capaz de um nível de fidelidade com o qual o vinil pode apenas sonhar.

AH, ENTÃO O MELHOR É O DIGITAL, CERTO?

Bem, não exatamente – e por um simples motivo: objetivamente e mensuravelmente melhor nem sempre quer dizer subjetivamente melhor. O que ocorre é que todas as imperfeições citadas do vinil muitas vezes trazem distorções que são vistas como prazerosas pelas pessoas. A carência de extensão nos agudos e alguns tipos de distorção analógica são frequentemente interpretados por ouvintes como calor, algo que pode ser muito agradável.

Até mesmo os cliques e pops de vinis que não são mais virgens trazem uma experiência mais nostálgica, e não podemos esquecer do ritual necessário para ouvirmos um disco de vinil – temos uma enorme mídia física que exige cuidado, frequentemente guardada num envelope com belíssimas artes, que precisa ser colocado num toca-discos seguindo alguns procedimentos. É muito diferente de simplesmente clicar duas vezes num arquivo num computador ou selecionar sua música no Spotify do seu iPhone. Não é apenas o ato de ouvir música, é um ritual e uma experiência muito envolventes, que podem, potencialmente, trazer uma relação mais íntima com a música.

Consequentemente, por qualquer método mensurável, o áudio digital será superior ao áudio analógico em termos de fidelidade. Mas, por melhor que ele seja em termos objetivos, ele não chega perto do áudio analógico de um vinil em termos de experiência. E é por isso que nós, da Kuba, somos amantes dois dois. Cada um em seu momento: o vinil com seu ritual e nostalgia, e o digital via streaming pela conveniência e potencial qualidade de som.

E você? O que prefere? Vamos adorar saber nos comentários!