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Como o Spotify criou a ferramenta (quase) perfeita de curadoria musical

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Como o Spotify criou a ferramenta (quase) perfeita de curadoria musical

Segunda-feira que vem, assim como todas as segundas-feiras nos últimos 3 anos, os mais de 75 milhões de usuários do Spotify receberão uma mixtape novinha em folha: serão cerca de 30 músicas que parecerão ter sido indicadas por aquele amigo apaixonado por música, que “queimava” CD’s nos longínquos anos 2000.

Mas, ao contrário do que parece, a playlist em questão não terá sido feita por uma pessoa, mas sim por um algoritmo.

Recomendações musicais automatizadas não são exatamente uma inovação, mas o Spotify parece ter encontrado a fórmula perfeita para montar uma lista personalizada que soa como uma novidade, mas ao mesmo tempo familiar.

A feramenta, oportunamente chamada de Discover Weekly (“Descobertas da Semana” para quem usa o aplicativo em português), rapidamente tornou-se uma grande vantagem competitiva sobre seus maiores rivais, como o Google e Apple Music e o Tidal.

Todos esses possuem bibliotecas similarmente amplas, mas a abordagem na hora de escolher as melhores canções para cada usuário é bem diferente.

 

 

O tweet acima é só mais uma evidência de algo que os números não deixam mentir: os usuários são apaixonados pelo Discover Weekly. Um ano após o lançamento, as músicas indicadas já haviam sido tocadas mais de 5 bilhões de vezes.

À época do lançamento, Matthew Ogle, então Gerente de Produto do Spotify comentou: “Hoje, temos tecnologia suficiente para garantir que se você for o mais obscuro e estranho músico do planeto, que faz algo que só 20 pessoas no mundo vão curtir, nós podemos achar essas 20 pessoas e fazer a ponte entre o artista e seus ouvintes”.

A consistência com a qual a ferramenta funciona bem é impressionante. Não só para mim ou para você, mas para mais de 75 milhões de pessoas. Como pode um algoritmo, uma sequência de dígitos, conhecer algo tão subjetivo e individual como nosso gosto musical? É “simples”:

 

Ele se baseia nas playlists de outras pessoas…

Playlists são o ponto de partida no Spotify. É o feature mais usado e conhecido pelos usuários da plataforma. Todos sabem usá-las e as acessam em uma base diária. E o Spotify considera todas as playlists existentes, desde aquela que você criou para cantar no chuveiro até a famosa Top Brasil.

Um peso maior é dado às seleções da própria casa e também a aquelas com mais seguidores. Então, o aplicativo preenche o vazio entre seus hábitos auditivos e o daqueles com gosto parecido.

Colocado de forma simples, se o Spotify percebe que duas das suas músicas favoritas tendem a aparecer em outras playlists com uma terceira faixa que você nunca ouviu, ele vai sugerir essa desconhecida para você.

 

E no seu gosto também.

Mas alguns fatores entram para complicar um pouquinho essa receita também. O Spotify cria também um perfil musical individual de cada usuário, que são agrupados em clusters de artistas e micro-genros (mais específicos do que simplesmente “rock” ou “rap”).

Esse agrupamento é gerado usando uma tecnologia desenvolvida pela Echo Nest, uma firma de análise musical adquirida pelo Spotify em 2014, que aprende sobre novos gêneros ao colocar robôs

para ler sites de música e entender como vários artistas são descritos.

 

Algoritmos conectam tudo

A ligação entre a informação de 2 bilhões de playlists e o seu perfil pessoal é feita pelos algoritmos do Spotify. Esse é o ingrediente secreto e onde as coisas ficam mais complexas. Segundo os engenheiros da empresa, o approach deles envolve o que chamam de “filtro colaborativo” (algo como o que vemos na Amazon e outros sites de compra na seção “Clientes que compraram isso também compraram”), misturado à Processamento de Linguagem-Natural, campo da ciência da computação que, através de inteligência artificial, permite a ferramenta desenvolvida pela Echo Nest fazer sua mágica e enteder blogs e músicas e títulos de playlists.

Além disso, o Spotify também está usando deep learning – uma técnica para reconhecer padrões a partir de quantidades gigantescas de dados, com poderosos computadores que são “treinados” por humanos.

 

Se você é apaixonado pelo Discover, agradeça a esse homem. Edward Newett é o engenheiro responsável pela divisão de Recomendações dentro do Spotify. (Ilustração: Olivier Bohhomme)

 

Personalização pode ser um pouco estranha

O resultado, como muitos usuários do Discover Weekly podem atestar, são desconcertantes às vezes. Volta e meia, somos apresentados a uma canção que nos deixa pensando “Como isso veio parar aqui?”. E isso é algo que impressiona até mesmo as pessoas de dentro do Spotify: “Uma das minhas coisas preferidas é o quão estranho o Discover é. Nós podemos construir esse sistema enrome, que está levando em consideração milhões de preferências e as calculando, e ao invés de algo previsível e chato, ele está jogando coisas totalmente não-convencionais e surpreendentes.” diz Ogle.

As playlists podem variam de semana a semana, refletindo a nossa camaleônica preferência musical.

 

E como não podia faltar, a opinião do “cliente”…

Apesar der ser um produto guiado desde o início pela filosofia data-driven (que se baseia puramente em dados e números), estamos falando de algo que envolve música e o fator humanos é, nesses casos, (ainda) crucial para a equação. Assim sendo, o Spotify introduziu no final de 2017 um sistema de feedback pelo qual o usuário pode dizer se gostou de receber uma sugestão ou não em sua playlist semanal. Afinal, podemos amar uma música, um artista ou um gênero, mas estar querendo sair de eventuais bolhas culturais.

 

Ferramenta de avaliação (em destaque) apresentada recentemente que permite ao usuário dizer se a recomendação foi boa ou não.

 

Às vezes, no entanto, faixas que vieram em nossa mixtape estranhamente aparecem na de diversas outras pessoas. Seriam essas faixas “plantadas” manualmente? “A resposta é sim, alguém a colocou ali” conta Ogle. “Outros usuários do Spotify que montaram playlists”.

Como era de se esperar, todos os dias, artistas e suas gravadoras pedem para ao Spotify para serem introduzidos, de forma quase que escondida, nas playlists semanais, mas o Spotify nega qualquer interferência. A resposta deles para as gravadoras é “Faça seus artistas lançarem músicas incríveis e fazer com que fãs genuinamente gostem e compartilhem eles. E aí vai acabar aparecendo no Discover Weekly. Existem já muitas maneiras de dizer ‘hey, aqui está uma música que você deveria ouvir’ no Spotify. Queremos manter o Discover protegido desse tipo de coisa.”